VOMITADA III - TER AOS 33

Está me incomodando o incômodo de muita gente com meus bens materiais. Detalhe: se resume num micro-escritório na casa de meus pais. Em todos esses anos eu nunca acumulei riqueza, sempre me desfiz das coisas quando estava com problemas e, pior, nunca juntei dinheiro pra nada. Mesmo sendo egoísta, eu não sou materialista, pego em dinheiro pra pagar contas e pra satisfazer a mim e minha família. Valorizo festa, alegria, uma saidinha na pracinha, no parquinho de diversões com as crianças, filhos e sobrinhos e irmãos, valorizo gastar pra satisfazer alguém, pra me satisfazer naquele momento. Valorizo o presente e nunca mais, ultimamente, parei pra pensar na solidificação do futuro dos meus filhos. E se eu morrer hoje, o que eles herdarão?
Quer que eu responda? Nem preciso, né!!! Pois hoje isso me incomodou. Explico, nem sei porquê, mas explico aqui, quem sabe um dia meus filhos queiram saber o que a mãe deles fazia com o salário de radialista que recebia em 14 anos de serviço: Nesses 13 anos eu já possui casa própria, toda mobiliada, fora os anos de aluguel que paguei religiosamente para me manter. Eu nunca possui transporte próprio, nem sei dirigir ainda, mas vou aprender agora em 2011, se Deus assim me permitir, porque quero comprar um fusquinha. Nunca consegui guardar dinheiro em poupança, pois sempre necessitei do pouco que recebo. Meus pais são pobres e criaram 12 filhos com dignidade e fé e nunca usufruíram de riquezas materiais na vida, mas sempre nos ajudam a manter os filhos e nós mesmas por perto, dependentes, psicologicamente, sentimentalmente(falo da maioria das mulheres). Meu pai sempre teve medo de minha independência, e, mesmo casada, ele jamais soltou minhas rédeas, acho que gosto dessa proteção, mas hoje me incomodo em nunca ter me libertado disso. Pra saber, nunca andei de bicicleta, pois não tive uma e ele jamais deixou eu aprender a andar, até tentei na adolescência, mas o bloqueio era tamanho, que não consegui aprender na bike da minha amiga alexandra. E pra dirigir hoje ele faz a mesma coisa, mas eu vou aprender, sem bloqueios, sem traumas... Pra saber, também, eu tenho acne desde os 16 anos, e nunca tive condições de tratar até os 25 anos, depois fiquei com vergonha de ir ao médico tratar, limpar, depois que falei com uma dermatologista que me criticou muito e disse que tinha que ter um bom dinheiro pra cobrir o tratamento... hoje tudo está mais fácil de conseguir mas eu não consigo ainda me ajustar. E por quê? Isso é bem doloroso de falar... Acho que não estou com coragem de relembrar... depois, quem sabe.
Eu estou vomitando aqui porque as pessoas sempre exigem de mim, equilíbrio e força excomunal para ser TUDO, para ter, para manter e para fazer TUDO sem fraquejar.

Lá fora do meu mundo, eu não sou nada demais. Lá fora eu sou uma simples mulher, tida como doida pra os outros, que é temperamental, impulsiva e mesmo trabalhadora, é inconsequente. Lá fora do meu mundo, as pessoas me veem como uma menina burra, que não tem nada, não tem ambição de nada, não tem interesse em ter um homem rico do lado, não procura ser uma servidora pública, só quer saber de televisão, de edição, de direção de TV e não faz por onde melhorar de status. Lá fora do meu mundo, as pessoas criticam quando ando de transporte pago, quando ando de transporte público, quando andava a pé. Lá fora do meu mundo, todo mundo espera que eu seja diferente, que eu seja pior, que eu sofra, que eu me lasque todo dia.

E aqui dentro do meu mundo, eu sou feliz, porque tenho tudo o que preciso pra ser completa, nem mais, nem menos, mesmo querendo ter mais um pouquinho de conforto na vida, conforto de uma CASA PRÓPRIA E DE UM CARRO, UM FUSQUINHA APENAS. Eu sou feliz, sou completa, sou realizada com meus filhos, com minha família, com meus amigos e com o pouco bem material que possuo. Claro que queria mais, sim. Eu queria 1 milhão de dólares, eu queria uma mansão na beira da praia do Coqueiro Baixo, eu queria uma hilux, eu queria um apartamento no 20° andar, simmmmmm...
 Mas não sou infeliz por não ter tudo isso.

Eu só rezo todos os dias pra meus filhos terem sorte, sorte na vida, pois eles foram feitos de amor... Que Deus possa guiá-los, protegê-los, cuidar deles sempre como eu nunca poderei cuidar.
Que minha displiscência material não os afete e eles possam ter ótimas oportunidades na vida, sempre, todo dia...

E que o medo da morte passe...

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